Em 18 de março de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano, em decisão unânime dos sete membros, na 277ª reunião 1,2,5. Foi o primeiro corte desde maio de 2024 e o fim de um período de nove meses com a taxa em 15% 2,4. A decisão importa porque inaugurou, em pleno ano eleitoral e sob choque externo, o ciclo de afrouxamento monetário que definiria o custo do crédito e da dívida pública ao longo de 2026.

O corte e o que o Copom disse

O comunicado oficial abriu com o diagnóstico de que o ambiente externo havia se tornado "mais incerto", em razão do acirramento de conflitos no Oriente Médio 1. No plano doméstico, o Comitê registrou moderação da atividade, mercado de trabalho ainda resiliente e inflação em arrefecimento, mas acima da meta 1. As expectativas do boletim Focus estavam em 4,1% para 2026 e 3,8% para 2027, e a projeção do próprio Copom para o horizonte relevante, o terceiro trimestre de 2027, era de 3,3% 1. Na reunião anterior, em janeiro, essas projeções eram de 3,4% para 2026 e 3,2% para o horizonte 3; a de 2026 subiu para 3,9% em março 1,2.

O corte de 0,25 ponto percentual veio acompanhado da promessa de "serenidade e cautela", condicionando os passos seguintes à clareza sobre a profundidade e a duração do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre os preços 1. Votaram pela decisão o presidente Gabriel Galípolo e os diretores Ailton de Aquino Santos, Gilneu Vivan, Izabela Correa, Nilton David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira 1.

O passo havia sido anunciado. Em janeiro, ao manter a taxa em 15% pela quinta reunião seguida, o Copom escreveu que antevia, "em se confirmando o cenário esperado", iniciar a flexibilização na reunião seguinte 3,5. Em março, cumpriu a sinalização, mas reduziu o tamanho do passo diante da piora externa 1,2.

Contexto

A Selic chegou a 15% em junho de 2025, depois de um ciclo de alta iniciado em setembro de 2024, quando a taxa estava em 10,5% 4,5. Em pouco mais de nove meses, a autoridade monetária elevou os juros em 4,5 pontos percentuais 4. Galípolo, indicado pelo presidente Lula e no cargo desde janeiro de 2025, conduziu a fase final da alta e o período de manutenção 6. A meta de inflação perseguida pelo Banco Central é de 3% 2.

Depois de março, o ciclo seguiu no mesmo ritmo. O Copom fez cortes de 0,25 ponto em abril, junho, agosto e setembro, e a Selic chegou a 13,75% em 16 de setembro de 2026 4,5,7. No mesmo comunicado de setembro, porém, as expectativas do Focus estavam em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, ambas mais altas do que em março 7.

Análise

O mérito da decisão de março foi a coerência entre o que o Banco Central anunciou e o que fez. Ao cumprir a sinalização de janeiro, mas com o passo mínimo, o Copom preservou previsibilidade sem ignorar o choque externo. Num ano eleitoral, em que a pressão política por juros mais baixos é previsível, a unanimidade e a justificativa técnica explícita reduziram espaço para leituras de que a decisão respondia ao calendário político 1.

Os custos e limites aparecem na comparação com o semestre seguinte. A taxa real continuou muito elevada: descontada a expectativa do Focus para 2026, a Selic de 14,75% equivalia a cerca de 10,2% reais ao ano em março, e a de 13,75%, a cerca de 8,4% em setembro, uma aproximação que usa a inflação esperada para o ano-calendário 1,7. Ao mesmo tempo, as expectativas de inflação se afastaram da meta durante o ciclo, de 4,1% para 4,9% em 2026 1,7. Isso não demonstra que o corte de março tenha sido um erro, porque o choque do petróleo e outros fatores interferem; mostra que o espaço para afrouxar era mais estreito do que o cenário de janeiro sugeria, e que o Copom passou a cortar juros com expectativas em piora.

Para a política fiscal, o ciclo modesto significa alívio limitado sobre o custo da dívida pública; esta apuração não verificou a composição da dívida e não quantifica esse efeito.

Conclusão

O corte de março foi tecnicamente defensável e institucionalmente bem comunicado: cumpriu o que havia sido sinalizado, calibrou o tamanho ao risco externo e foi unânime. Sua limitação está no que veio depois. Seis meses e cinco cortes mais tarde, os juros nominais caíram 1,25 ponto, os juros reais seguiram acima de 8% ao ano pela aproximação usada aqui e as expectativas de inflação pioraram. O início do afrouxamento não se converteu, até setembro, em ancoragem das expectativas, condição de que depende a sustentação do ciclo.

O que acompanhar

A próxima reunião do Copom, as projeções de inflação do Relatório de Política Monetária e a trajetória das expectativas do Focus para 2026 e 2027, que indicarão se o ritmo de cortes de 0,25 ponto será mantido, acelerado ou interrompido.