A Etiópia fechou em 1º de outubro sua embaixada em Asmara e deu 48 horas para que dez diplomatas da Eritreia deixassem Adis Abeba. No mesmo dia, o governo eritreu respondeu rompendo todas as relações diplomáticas com o vizinho 1,2. A ruptura ocorreu horas depois de explosões na capital etíope, atribuídas por uma fonte ligada à oposição armada a ataques com drones, e transforma uma guerra interna que voltou ao norte do país em crise regional aberta, com o Egito também envolvido na troca de expulsões 1,3,4.
O que foi decidido e o que se sabe dos ataques
O Ministério das Relações Exteriores da Etiópia declarou os dez diplomatas eritreus personae non gratae, incluindo o chefe da chancelaria e pessoal acreditado junto à União Africana, sob a justificativa de envolvimento em atividades que representam "ameaça direta à segurança nacional" e de "atos diretos e indiretos de hostilidade" 1,2. A chancelaria eritreia classificou a expulsão de "espantosa" e afirmou não ter alternativa senão "retribuir na mesma moeda" e cortar os laços 1,2.
Segundo a agência AP, o serviço de inteligência etíope havia proibido voos de drones sobre Adis Abeba e arredores; depois disso, durante a noite, testemunhas relataram três explosões em pontos diferentes da cidade, uma delas perto do quartel-general da Defesa 2. Uma fonte ligada à aliança oposicionista disse à Reuters que o grupo lançou vários ataques com drones contra a capital, inclusive contra o comando militar, o que seria o primeiro ataque conhecido de forças antigovernamentais à cidade 3. O governo não confirmou oficialmente a autoria nem a causa das explosões até a publicação das reportagens consultadas 2.
A Etiópia também expulsou um diplomata egípcio, e o Cairo respondeu declarando persona non grata um conselheiro da embaixada etíope, com o mesmo prazo de 48 horas 1,4. Adis Abeba acusa Eritreia, Sudão e Egito de apoiar a aliança armada liderada pela Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF); os três países negam 3,4.
Contexto
A escalada começou no fim de setembro. Em 20 de setembro, sete grupos armados — entre eles a TPLF, o Movimento Nacional Fano, da região de Amhara, e o Exército de Libertação Oromo — anunciaram uma aliança com o objetivo declarado de derrubar o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed e instalar uma administração de transição 5,6. Em 23 de setembro, forças tigré tomaram os aeroportos de Mekelle, Axum e Shire, o que levou à suspensão dos voos para a região, e o conflito se estendeu às regiões vizinhas de Afar e Amhara 5,7. No mesmo dia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse estar "gravemente preocupado" e pediu a retomada das conversas no marco do Acordo de Pretória 7.
Esse acordo, assinado em novembro de 2022, encerrou a guerra de 2020 a 2022 entre o governo federal e a TPLF, que deixou centenas de milhares de mortos 1,3. A Eritreia lutou ao lado de Adis Abeba naquela guerra, mas ficou fora de Pretória 1,3. A reaproximação de 2018, que valeu a Abiy o Nobel da Paz, já vinha se desfazendo com a disputa sobre acesso etíope ao mar Vermelho: a Etiópia, sem litoral, reivindica rota marítima, e a Eritreia teme uma tentativa de tomada do porto de Assab 3.
Análise
A ruptura formaliza o que as acusações etíopes já sugeriam: o governo passou a tratar a ofensiva interna como guerra com patrocínio externo. Essa leitura tem consequências práticas. Sem embaixadas, desaparece um canal direto de comunicação justamente quando a administração de Afar acusa soldados eritreus de participar da ofensiva 1 — alegação que não foi verificada de forma independente nas fontes consultadas.
A inclusão do Egito amplia o risco. A Comissão da União Africana divulgou nota em 1º de outubro pedindo "máxima contenção" aos três Estados-membros e a preservação dos canais de comunicação 8. O texto não traz mecanismo de mediação, prazo ou proposta concreta; limita-se a oferecer apoio. A mediação do ex-presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, endossada pela ONU em setembro, não produziu cessar-fogo até agora 7.
A qualidade da evidência é desigual. A ruptura diplomática e as expulsões estão documentadas por declarações oficiais reproduzidas por agências diferentes. Já a autoria dos ataques a Adis Abeba depende de fonte anônima e de testemunhos, e o envolvimento militar estrangeiro é, por ora, acusação de uma das partes negada pelas demais. Números de mortos divulgados pelos dois lados não foram confirmados por fonte independente e, por isso, não são reproduzidos aqui.
Conclusão
O fato demonstrado é grave por si: a Etiópia e a Eritreia não têm mais relações diplomáticas, o Egito entrou na troca de expulsões, e a guerra no norte etíope alcançou, segundo a própria oposição armada, a capital. O que não está demonstrado é que a crise já seja uma guerra entre Estados. A distância entre uma coisa e outra depende de fatos ainda não verificados — a presença de tropas eritreias em território etíope e a origem do apoio aos rebeldes — e da capacidade da União Africana de passar das notas à mediação efetiva.
O que acompanhar
Os próximos marcos verificáveis são o cumprimento do prazo de 48 horas para a saída dos diplomatas, eventual reunião do Conselho de Paz e Segurança da União Africana sobre a crise, e qualquer confirmação independente, pela ONU ou por observadores, da presença de forças eritreias em Afar ou Tigré.
