Abelardo de la Espriella tomou posse como presidente da Colômbia na sexta-feira, 7 de agosto de 2026, em Cali, e não em Bogotá, como manda a tradição 1,3. No discurso, o advogado e empresário de direita, estreante na política, declarou esgotada a via do diálogo com os grupos armados e prometeu combatê-los até a derrota 1,2. A cerimônia marcou o fim da política de "paz total" de seu antecessor, Gustavo Petro, baseada na negociação simultânea com guerrilhas e organizações criminosas, e uma mudança de rumo do vizinho do Brasil em segurança, economia e alinhamento externo 1,2.

O que foi anunciado na posse

A escolha de Cali foi apresentada como sinal de prioridade ao sudoeste do país, região onde atuam grupos armados ilegais 1. A posse ocorreu na Universidade Santiago de Cali e foi a primeira investidura presidencial colombiana realizada fora da capital 3. Entre os convidados estavam o rei Felipe VI, da Espanha, os presidentes Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador), o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e Todd Blanche, então procurador-geral interino dos Estados Unidos 1,2.

O novo presidente nomeou como alvos as dissidências das FARC, o Clan del Golfo e o Exército de Libertação Nacional (ELN), e disse que os grupos teriam de se render ou seriam declarados alvos militares, segundo a Associated Press 1. No plano econômico, prometeu austeridade, com corte de gastos do governo de até 40%, além de estímulo ao fraturamento hidráulico (fracking) e fortalecimento da estatal Ecopetrol, de acordo com o relato das agências compilado pela Al Jazeera 2. Na política externa, anunciou a intenção de aderir ao chamado Escudo das Américas, restabelecer relações com Israel e romper com Cuba e Nicarágua 2. O governo eleito também havia comunicado aos Estados Unidos a intenção de retirar a Colômbia da iniciativa chinesa Rota da Seda 3.

Contexto

De la Espriella venceu o segundo turno de 21 de junho por margem estreita contra o senador Iván Cepeda, aliado de Petro 1. Petro inicialmente não reconheceu o resultado e alegou fraude; observadores internacionais e as autoridades eleitorais rejeitaram a alegação 2. O presidente Donald Trump apoiou publicamente o candidato, e Washington prometeu US$ 1 bilhão em assistência de segurança, valor que ainda dependia de aprovação do Congresso americano 2.

A vitória do candidato que prometia encerrar as negociações indica, como leitura editorial, desgaste da estratégia de Petro junto a parte do eleitorado. A margem estreita, porém, mostra um país dividido, o que limita a interpretação do resultado como mandato amplo.

Análise

A virada tem lógica eleitoral e um diagnóstico plausível: negociar ao mesmo tempo com várias organizações de natureza distinta, várias delas sem projeto político e financiadas pelo narcotráfico, mostrou-se difícil de verificar e de cobrar. Encerrar mesas sem resultados pode devolver ao Estado a iniciativa.

Os custos, porém, apareceram cedo. Em 27 de agosto, um bombardeio militar no departamento de Guaviare matou dez pessoas, entre elas três adolescentes de 15 e 16 anos; o Ministério da Defesa informou 24 supostos rebeldes mortos desde a posse 4. O presidente atribuiu a responsabilidade aos grupos que recrutam menores 4. O caso expõe o dilema conhecido da Colômbia: grupos armados recrutam crianças, e operações aéreas contra seus acampamentos tendem a matá-las. Uma política de força sem protocolos públicos de proteção de civis troca um problema de eficácia por outro de legalidade e legitimidade.

A promessa fiscal merece cautela. Um corte de até 40% nos gastos, como relatado, não veio acompanhado, nas fontes consultadas, de detalhamento por área nem de estimativa de impacto, e a mesma agenda prevê mais despesa com segurança e prisões. Até a apresentação de um orçamento, trata-se de intenção, não de política executável.

No plano externo, o realinhamento com Washington é claro e já teve efeito concreto. Em setembro, o governo extraditou para os Estados Unidos Geovany Andrés Rojas, conhecido como "Araña", comandante dos Comandos de la Frontera, que Petro havia preservado como interlocutor nas negociações 5.

Conclusão

A posse de 7 de agosto inaugurou uma mudança real de doutrina, e não apenas de discurso: em menos de dois meses houve operações letais, abandono das negociações e extradições antes bloqueadas. O que ainda não está demonstrado é se a estratégia reduz a violência e o poder territorial dos grupos armados, nem se o ajuste fiscal anunciado é compatível com o aumento de gastos em segurança. A evidência disponível permite avaliar a direção, não o resultado.

O que acompanhar

Os marcos verificáveis são a proposta orçamentária do novo governo, que dirá se o corte de gastos tem forma concreta; a decisão do Congresso americano sobre a assistência de US$ 1 bilhão; e os dados oficiais de homicídios, deslocamentos e mortes de civis nos primeiros meses de operações.