Em 28 de julho de 2026, a Prefeitura de Florianópolis abriu a concorrência para contratar as obras do corredor exclusivo de ônibus na Avenida Mauro Ramos, no Centro. A obra é apresentada pela Prefeitura e pela imprensa local como a primeira etapa do BRT da capital, financiado com recursos federais, e é o primeiro teste concreto de uma promessa feita em 2025: separar o ônibus do tráfego comum em uma avenida central da Ilha 1,2,3.

O que foi licitado

O aviso de concorrência saiu no Diário Oficial da União e no portal de compras do governo federal, com abertura das propostas marcada para 10 de setembro, às 10h. O aviso, segundo o Diário do Transporte, não informava o valor estimado da contratação 1. A estimativa apareceu na imprensa local: o ND Mais publicou R$ 18 milhões, e a coluna de Fabio Gadotti, reproduzida pelo FloripAmanhã, R$ 18,9 milhões 2,3. Esta apuração não teve acesso ao edital e trata a cifra exata como não confirmada; a ordem de grandeza é a mesma nas duas fontes.

O corredor terá 2,6 quilômetros 2,3. Segundo a coluna, somados os eixos de acesso, a intervenção chega a 4,9 quilômetros. As duas faixas exclusivas, de três metros cada, ocuparão o canteiro central, e o tráfego geral será reorganizado em duas faixas laterais de 3,20 metros. O projeto inclui pavimento de concreto na pista dos ônibus, ampliação da drenagem, nova geometria viária, 14 abrigos, 15 paradas e arborização, com prazo de execução de 360 dias 3. O secretário municipal de Infraestrutura e Manutenção, Rafael Hahne, estimou em entrevista à NDTV que a obra leve cerca de um ano e meio 2.

Estágio institucional: licitação aberta. Não há, nos documentos consultados, empresa contratada, ordem de serviço ou cronograma físico assinado.

Contexto

A obra decorre do convênio de R$ 159 milhões com o Ministério das Cidades, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento, assinado pela Prefeitura em 19 de maio de 2025. O convênio cobre os trechos 1 e 2 do BRT, entre o Terminal da Trindade (Titri) e o Saco dos Limões, com cerca de 5,2 quilômetros, e a faixa exclusiva da Mauro Ramos, então dimensionada em 2,67 quilômetros, além de 20 abrigos e nove estações de embarque. Na assinatura, a Prefeitura previu de seis a oito meses para revisão do projeto, análise da Caixa Econômica Federal e lançamento da licitação, e três anos para executar as obras 4.

Três dias depois da publicação do aviso, a Prefeitura anunciou a fase de oficinas comunitárias da revisão do Plano de Mobilidade Urbana, cuja versão vigente é de 2015, com apoio técnico da Fipe e dez encontros marcados para agosto 5.

Análise

O mérito do projeto é verificável no desenho: faixa no canteiro central, separada do tráfego geral, é a configuração que dá prioridade real ao ônibus. Faixas junto ao meio-fio tendem a sofrer interferência de conversões, paradas e estacionamento. Um corredor desse tipo em avenida central tende a reduzir o tempo de viagem e a variação de horário dos ônibus, mas o ganho efetivo depende de semáforos, integração tarifária e frequência, que não fazem parte desta licitação.

Os custos e as dúvidas também são concretos. Primeiro, o prazo: entre a assinatura do convênio e a abertura da concorrência passaram-se 435 dias, cerca de 14 meses, contra os seis a oito meses anunciados em 2025 4. Se o prazo de três anos informado em 2025 for contado a partir do convênio, a margem para concluir os demais trechos encolheu. Segundo, a divergência de prazos: 360 dias na descrição atribuída ao projeto e cerca de 18 meses na estimativa do secretário 2,3. A diferença pode refletir etapas não incluídas no contrato, mas não foi explicada nas fontes consultadas. Terceiro, a Mauro Ramos representa cerca de 11% a 12% do valor do convênio (R$ 18 milhões a R$ 18,9 milhões sobre R$ 159 milhões); os trechos estruturantes, Titri–Saco dos Limões, ainda não chegaram à licitação nas fontes consultadas.

Há ainda uma questão de sequência. A cidade licita o primeiro corredor enquanto revisa o plano que deveria definir a rede de mobilidade. Isso não invalida a obra, que já constava do convênio, mas faz o PlanMob, nesse trecho, confirmar uma decisão já tomada em vez de orientá-la.

A qualidade da evidência é intermediária. O fato central, a publicação do aviso e a data das propostas, tem duas origens independentes: o registro no Diário Oficial da União, reportado pelo Diário do Transporte, e a reportagem do ND com entrevista ao secretário. Valor, extensão total e prazo contratual dependem de reportagem e coluna, não do edital.

Conclusão

A abertura da licitação tira o corredor da Mauro Ramos do anúncio e o coloca em procedimento formal, o que é um avanço mensurável. Não basta para afirmar que o BRT de Florianópolis está em marcha: a etapa licitada é a menor do pacote, chegou à licitação de seis a oito meses depois do que a própria Prefeitura previra e ainda não tem contrato. O teste decisivo será a capacidade de licitar os trechos 1 e 2 dentro da vigência do convênio.

O que acompanhar

O resultado da sessão de 10 de setembro, com número de propostas, valor vencedor e homologação, e a assinatura da ordem de serviço. Esta apuração não localizou registro público do resultado até 2 de outubro de 2026. Também vale acompanhar quando serão publicados os editais dos trechos Titri–Saco dos Limões.